José Silvestre
Fé que resiste: os Mártires de Cunhaú e Uruaçu unem o Rio Grande do Norte pela devoção e pela história
Entre o altar e o sangue, as cidades de Canguaretama e São Gonçalo do Amarante preservam o legado dos primeiros santos mártires do Brasil — símbolos de fé, coragem e identidade nordestina.
Evento dos Martires de Cunhaú e UruaçuFé que resiste: os Mártires de Cunhaú e Uruaçu unem o Rio Grande do Norte pela devoção e pela história
Entre o altar e o sangue, as cidades de Canguaretama e São Gonçalo do Amarante preservam o legado dos primeiros santos mártires do Brasil — símbolos de fé, coragem e identidade nordestina.
Por José Silvestre
Canguaretama e São Gonçalo do Amarante (RN)
José Silvetre no evento junto com Euclides Presidente do Cons. Comunitário de Solidade I e a Deputada Divaneide Basilio.
Em Cunhaú, o vento sopra leve sobre as ruínas da antiga capela de Nossa Senhora das Candeias. Em Uruaçu, o som dos sinos ecoa sobre o santuário moderno erguido no alto de São Gonçalo do Amarante. Separadas por mais de 100 quilômetros, as duas cidades são unidas por um mesmo testemunho: a fé inabalável dos Mártires de Cunhaú e Uruaçu.
De Cunhaú a Uruaçu: o caminho da fé e do sacrifício
Em 16 de julho de 1645, em Cunhaú, o padre André de Soveral celebrava a missa dominical quando o templo foi invadido por soldados e índios aliados dos holandeses. O sacerdote e dezenas de fiéis foram mortos dentro da igreja, sem renunciar à fé católica. Poucos meses depois, em 3 de outubro, o cenário se repetiu em Uruaçu, então uma pequena aldeia no atual território de São Gonçalo do Amarante. Ali, o leigo Domingos Carvalho, o índio convertido Antônio Paraupaba e dezenas de cristãos foram capturados e massacrados — também por se recusarem a abandonar sua crença. Esses dois episódios, ocorridos durante o domínio holandês no Nordeste, formam o capítulo mais trágico e, ao mesmo tempo, mais inspirador da história religiosa potiguar.
O renascer da devoção
Séculos depois, o Vaticano reconheceu o martírio dos potiguares. Em 2000, o Papa João Paulo II canonizou André de Soveral, Domingos Carvalho, Ambrósio Francisco Ferro e seus companheiros, declarando-os os primeiros santos mártires do Brasil. Hoje, tanto Canguaretama quanto São Gonçalo do Amarante transformaram-se em polos de fé e turismo religioso. Em Cunhaú, o visitante encontra o Santuário de Nossa Senhora das Candeias, onde o silêncio ainda parece guardar o eco da missa interrompida. Já em São Gonçalo, o Monumento dos Mártires de Uruaçu domina o horizonte, com sua grande cruz branca e o altar voltado para o pôr do sol. "O que aconteceu aqui não é apenas história. É fé que se renova a cada geração”, afirma o padre Flávio Medeiros, reitor do Santuário de Uruaçu. “Os mártires nos ensinam que a fé é mais forte que o medo.”
Peregrinação e identidade
Igreja dos Martires de Cunhaú - Foto; José Silvetre
Todos os anos, no mês de outubro, milhares de romeiros de todo o Brasil se reúnem em São Gonçalo do Amarante para a Festa dos Mártires de Uruaçu. O evento mistura religiosidade, cultura popular e celebração da identidade nordestina. A professora Luzia Maria de França, natural de São Gonçalo, destaca o papel educativo da história:
“Os mártires não pertencem só à Igreja, mas à cultura do povo potiguar. Ensinar sobre eles é ensinar sobre coragem e pertencimento.” Em Canguaretama, o clima é semelhante. As romarias de julho e os eventos religiosos movimentam o comércio local e atraem fiéis de vários estados. “Cunhaú é um lugar onde o passado fala. Cada pedra tem um testemunho de fé”, diz o historiador Francisco Fagundes.
Entre a cruz e o futuro
Para os jovens que visitam os santuários, o martírio do século XVII ganha novo significado. A estudante Maria Eduarda Soares, 22, resume o sentimento da nova geração:
“Eles morreram por aquilo em que acreditavam. Hoje, a gente vive para manter essa chama acesa.”
A mensagem dos Mártires de Cunhaú e Uruaçu atravessa o tempo e transforma o Rio Grande do Norte em um grande altar de memória, fé e esperança.





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